sábado, 19 de março de 2011

Pães




“Quantos pães Seu Júlio?” A pergunta do balconista lhe soou como uma seta envenenada indo direto ao coração. “Dois”, respondeu. Mas não conseguiu pegar a sacola, pois foi tomado por um soluço incontrolável. Levou as mãos ao rosto e deixou o desespero tomar sua alma.
Uma semana atrás seria impossível comprar apenas dois pães. Pão era uma das comidas preferidas de seus filhos. Então, toda manhã bem cedo corria à padaria da esquina e comprava quinze pães torrados e quentinhos. Era o primeiro cliente a chegar.
Assim que se recompôs, pegou a sacola e saiu sem se despedir. Por isso, nem notou os rostos perplexos que deixou para trás. Enquanto voltava pra casa pensou no quanto sua vida mudara nos últimos dias, mais ainda: no quanto ele mudara. Realmente, sua vida havia se fragmentado em dois períodos: o Júlio antes do acidente dos filhos e, o que restou do Júlio depois.
Desejara voltar ao tempo e desmarcar todos os “compromissos importantes” para fazer o que de fato seria inadiável: passar mais uns segundos que fosse com eles. Quis ter estado na platéia para ver a princesa das árvores mais bonita do teatro; também aspirou tanto ter estado na arquibancada torcendo pelo filhão. “Que bobagem” não podia. Mas ainda assim quis tanto ter aprendido jogar videogame! Chegou a querer ter sido viciado nisso, só porque sabia que todas as vezes que seus olhos corressem para o lado, lá estariam eles, tentando vencê-lo. E perderia feliz.
Trouxera à memória o fato de que a muito custo aprendera a trançar o cabelo da filha e se tornara um “expert” em penteados, o que fazia Clara rir muito. Ainda assim, não se sentiu aliviado. A sensação de que poderia ter feito mais estava sempre presente.
Quando os filhos ainda eram crianças, ao chegar em casa a primeira coisa que fazia era se jogar no tapete para brincarem de homens invisíveis. E eram de verdade.
Nada seria igual. Não mais. O silêncio lhe doía os ouvidos, nele a ausência do rock que Clara ouvia bem alto gritava-lhe. “Como preferia a dor de cabeça e o incomodar dos vizinhos com a barulheira”. A ausência de sons dói, massacra os ouvidos.
Sentia falta de sua família. Não existia mais família. “Família de dois? Isso não é família! Não existe família com duas pessoas”. A primeira vez que disse isso à sua esposa sofreu muito, pois sentiu que a houvera machucado, mas era a verdade e ela sabia disso.
Desde o dia em que sua tia, na tentativa de ajuda sugeriu que fossem retiradas as roupas e os pertences de Clara e Emílio de casa, pois as “lembranças machucam” e “eles não usariam mais”, Júlio não quis mais receber visitas.
- Por não enxergar, um cego deve ter seus olhos arrancados?! Pergunte a um se deseja isso! Diga-lhe: Para que precisa de olhos se não podes ver? Berrou possesso.
Toda vez que tocava a campanhia, corria para seu escritório.       
As pessoas tendem a esquecer que as maiores lembranças de alguém, são as que não podem ser tocadas, pois, estão cravadas em cada um. Então, sempre a saudade lhe sacrificava ainda mais, gostava de ir ao quarto deles para pegar suas roupas e as abraçar. ”Elas ainda têm seu cheiro”. Chegava a dormir com elas. E ninguém levaria o cheiro dos filhos daquela casa. Foi apenas o que restou: o cheiro deles, o passado que era agora seu tesouro e uma imensa e inarrável dor.
Aquele pensamento sempre o atormentava: temia um dia esquecer suas vozes. Tremia só de pensar que o silêncio as pudesse engolir para sempre e isso o aterrorizava de tal forma que, ao sonhar com eles passava o dia inteiro com elas na cabeça. Não, nunca se permitiria esquecer.
O desejo de viver dormindo se tornou quase uma obsessão. Queria dormir porque dormindo sempre sonhava e nos sonhos lá estavam, Clara, Emílio e suas vozes. Ao acordar, aquela sensação que se tem de que foi real o sonho o deixava sereno. Ficava preso durante todo dia ao sonho tido, as imagens reais, a sua família real e aos seus filhos vivos de verdade. Se não conseguia dormir, recorria a remédios. Tudo bem que dormir não o que importava, queria mesmo é sonhar.
Até o dia daquela desgraça, não soubera o significado de sofrimento. Teve uma infância e adolescência plena e nada que o desagradasse muito na fase adulta. Casara com a mulher que amava e desde então havia saboreado os dias e dias de uma felicidade planejada. Foi feliz duplamente ao saber da gravidez, dose dupla de emoção no nascimento dos gêmeos e só então sentiu a multiplicação de dor na perda.
Uma cena do velório: Dois caixões univitelinos. Que amaldiçoada ironia! Eles lado a lado como na gestação, lado a lado como estiveram no berçário quando nasceram e lado a lado se foram.
Júlio se inclinou no caixão de Clara. Um sussurro ao ouvido: “Obrigado princesa. Os dias foram de um rosa cintilante e caminhos mais amenos a seu lado. Fez  mesmo com Emílio: “Filhão, obrigado. Foram doces todas as horas só de imaginar que o veria no fim do dia. Beijou-os a face. Um susto. O rosto de cada um estava completamente gélido! Notou assim que não havia mais ninguém ali. Eles tinham ido embora.
Sempre que voltava a este cenário sentia o corpo cansado, os músculos rígidos lhe doíam muito. Decidiu deitar-se e logo adormeceu. Estava num barco e via a praia e seus muitos coqueiros ao longe; a esposa aproveitava o sol daquele dia de verão. Daí as vozes: Papai vem logo. A água está deliciosa”.
Morreu sorrindo em mais um sonho real e em família. Há quem diga que morrera feliz.


Érica Francisca de Souza

O VENCEDOR







Através da janela do carro via as pessoas lá fora, num formigueiro humano. Umas a andar apressadas, outras conversando, uma mãe segurava firma a mãe do filho ao atravessar a avenida, algumas outras trabalhavam. De onde teriam vindo? Que pensamentos estariam passando pelas suas cabeças naquele momento? Que futuro as aguardava? Que escolhas fariam?
Sempre que o tempo lhe permitia pensar em algo que não fosse o trabalho, ficava observando os transeuntes. Porém, pensamento tinha sido interrompido pela indagação do motorista:
- O senhor não me respondeu para onde quer ir Dr. Júnior
- Ao restaurante Maka`s Tito.
Quatro da tarde e ainda não havia almoçado. Solicitou o restaurante mais longe do seu escritório porque queria pensar mais um pouco, coisa que seria improvável fazer em casa ou no escritório visto que o telefone nunca parava de tocar.
Era dia 6 de julho e tinha estado distante todo o dia. Fazia exatos quinze anos que ele saíra do interior de Sergipe para “conquistar o Rio de Janeiro” e, apesar de seu sucesso, essa data nunca tinha lhe dado muito contentamento. A cada aniversário da vinda para a Cidade Maravilhosa ficava totalmente melancólico, longe como se estivesse sob efeito de hipnose.
Sua vida em Pernambuco não havia sido muito fácil. Para chegar à escola andava oito quilômetros a pé numa terra rachada como o enrugado rosto de um velho. Ia em grupo: ele, Pino seu amigo de infância e afilhado de seu pai, Mirna a amiga mais engraçada da turma e que era gaga, Tião e sua irmã Amália.
O que sempre intrigava o Dr. Júnior era o fato de que só depois de crescido ele teve a noção de que cinco crianças entre seis e sete anos de idade andavam sozinhas todos os dias debaixo de um sol escaldante para chegar à escola. Andavam oito quilômetros! Na época costumava dizer que a escola ficava ali “pertinho”.
Eles riam muito na estrada, falavam sobre o que cada um queria ser, de que iriam brincar quando chegassem a escola com os outros amigos e na volta, sempre avessos a solicitação dos pais de não pararem no caminho sem um bom motivo, sempre tomavam um banho na represa. Muitas vezes comiam a merenda do dia antes de chegarem à escola e, apesar de todos levarem a mesma coisa na sacolinha, sempre dividiam uns com os outros os seus punhadinhos de farinha com bananas. Vez ou outra quando as bananas não tinham tido tempo para amadurecer levavam cacto assado na folha de bananeira.
A certeza de ser peão acompanhou-o durante toda a sua infância. Não qualquer peão, mas, “o melhor peão do mundo”, aquele de rodeios. Seria conhecido como “o Encantador de Bois”. Antes de ir deitar fazia coro com seu pai, amava ouvi-lo tocar aquela sanfona velha, e não deixava o sono lhe vencer antes da chegada de sua mãe para beijá-lo: “Nossa Senhora te cubra com teu manto”.
Uma coisa muito engraçada era que todas as vezes que Dr. Júnior chegava a sua casa no Leblon sempre a estranhava, não se habituava ao tamanho, o ambiente e ainda que residisse ali há três anos, era como se não fosse dele. O engraçado, dizia ele, é que toda vez que pronuncio a palavra casa, a que me vem à mente é a minha casinha de taipa na roça com seus quatro cômodos de chão de barro batido. As cicatrizes nos dedos haviam sido herança daquele chão onde costumava brincar de três Marias com sua irmã Amália e, ainda que não lhe faltasse recursos para removê-las nunca o quis fazê-lo, pois eram como “fotografias de um momento bom”.
Seus pais o haviam visitado duas vezes desde que tinha se estabilizado como um respeitado empresário do ramo de turismo, mas não gostavam do barulho da metrópole então, sempre que seus clientes permitiam voltava a Sergipe. O que em números isso significava quatro vezes. Ansiava muito ajudar mais os pais, mas que utilidade teria um televisor de LCD, um computador e um home theater naquele lugar? A máquina de lavar que tinha dado a sua mãe em seu aniversário fora transformado em reservatório de água e o conjunto de seda pura que trouxe de uma das suas viagens à Indonésia tinha sido comido pelas traças ainda na sacola.
Com a ajuda do trânsito chegou ao restaurante em quarenta minutos. ”Era um vencedor”. Quando contava aos amigos de onde tinha vindo, era essa frase que ouvia em seguida. Um vencedor. A palavra tomou uma conotação diferente de seus tempos de menino. Lá, o vencedor era aquele que conseguia atingir o topo da árvore mais alta trazendo o fruto do lugar mais difícil. “O Tarzan” comia por três dias o lanche dos vencidos - que nunca ficavam sem comer de verdade - que tinham a obrigação de levar cadernos e livros do vencedor por uma semana. Isso é que era glória.
Na porta do Maka`s sentiu o gosto de sua sobremesa predileta em Sergipe: as raras flores que encontravam pela estrada e que misturadas com o mel que o patrão do pai de Tião dava, ficavam deliciosas.
Sentou-se à melhor mesa do mais requintado restaurante do Rio, já de cardápio na mão o garçon perguntou-lhe:
- Qual a especialidade hoje Dr. Júnior?
- Tem banana com farinha? disse ao garçon


Érica Francisca de Souza

sábado, 12 de março de 2011

Adoção









Me adote criança
Me mostre como é não ter medo
Me ensine a correr como cavalos selvagens
Numa velocidade incontida

Queria ter sua agilidade
Em quebrar redomas de vidro
E sempre conseguir escapar

Como conseguem desaparecer assim?
Do alcance da visão alheia?
Me ensine criança

Tão pequena e já em poder
Que louco esse poder
De fotografar a alma adulta
Como identifica o perigo nas pessoas?

Me ensine essa brincadeira de esconde-esconde
Mostre o melhor esconderijo dos problemas
Leve-me a seu castelo

Ponha-me pra ninar
Cante uma música de duendes
Me banhe com pétalas de rosa
Me faça lembrar que tenho direito a sonhos

Que crescer não é sinônimo de renúncia
Que nem sempre banhos de chuva adoecem
E que ser feliz não é bobagem

Me faça ter a certeza que é errado pensar
Que há apenas uma fase
Para se ser feliz de verdade

Diga pra mim, por favor,
Que não existem erros incorrigíveis
Se nós quisermos

Como é criança,
Sorrir só por vontade?
E chorar sem ter vergonha?

Me adote pequena
Preciso ao passado voltar
Ver como eu era
Me resgatar

Me conte histórias
Me ponha como princesa nelas
E não esqueça de contar que as bruxas sempre perdem
Posso sim, ser adulto e criança numa só fase
Dormir agarrada a um ursinho
E ter amigos imaginários
Tudo posso se simplesmente me adotar.


Érica Francisca de Souza

Visita



Não o procurei, nem por um segundo.
Mas todo o tempo soube que viria
Amor sempre chega
E ele chegou

Com você nos braços
Semelhante a uma cegonha
Te entregou a mim

Nesse momento a voz do anjo:
“transforme cada dia em sorrisos seculares”

Zonza de felicidade
Te recebi,
Folhas das árvores caíram

Era o ritual
Em que florestas choram
Por celebrar o amor

Minha vida se desviou
Indo direto pro seu caminho
Agora te tenho como escudo

Sem contratos
Sem contudo
Só contente

Te tenho imperfeito
Da mais perfeita forma
Que pode um coração desejar

Vem garoto
Descobrir comigo
Que inferno pode não ser tão ruim
Se quatro mãos estiverem dadas

Você e eu
Partes inteiras
Da metade de todo amor
Que há no mundo

Zonza te recebi
E zonza vivo até hoje.


Érica Francisca de Souza

Por não querer




Por não Querer

Eu que nem lembrava o que era viver
Que não respeitava o tempo
E que não tinha espaço
Me vi em você

Eu que não estava aqui, nem ali.
Que não estava em lugar algum
Agora moro em você

Nunca disse que seria calmaria
E nem fui
Mas fui a constante do amor
Avassalador amor

Eu que nem queria me mover
Fui movida por este amor
Areia movediça
Submersa por querer

Eu que nem prometi te dar estrelas, céu ou lua
Te dou todas além do céu, do mar e da lua
Pois tenho todas em mim
A cada toque seu

Quem há de negar que amor é bobo?
Porque eu que nem queria te aceitar
Te recebo todos os dias assim:
Um imperfeito completo

Pois aqui, em meu amor.
Não existem pedras irremovíveis

Nem queria me mostrar
E apareço pelo avesso
Em seu domínio sempre melhor

Eu que nunca quis
Não me imagino sem
Já que amor não é querer
Ele é acontecer!


Érica Francisca de Souza

quinta-feira, 10 de março de 2011

Resposta







Fiz o mesmo com você. Ou acha que foi o único a ter segredos? Também senti outro perfume e soube bem que outra boca pode ser tão doce quanto a sua.Descobri que meu corpo tem o encaixe perfeito com outro corpo além do seu.
Porque esse espanto amor? Você as desejava tanto! Ah, se olhasse para mim como as olhava! Sua cegueira comigo fez com que outros olhares se voltassem para mim.
Nunca pensei em você quando estava com ele, mas sempre pensava nele ao seu lado.
Você me convenceu: sexo nada tem a ver com amor. Se pudermos uni-los, ótimo;mas quando separados não é menos prazeroso.
Não me mande calar. Você nunca foi grosseiro, isso não.
Consegue se lembrar a última vez que veio direto do trabalho pra casa? Sabe quantas vezes me humilhei te ligando? Quantas vezes ouvi a caixa de mensagem? E quantas vezes chorei?
Não se desculpe agora. "Que casa aconchegante". Alguém adorou vir ao lugar que você deveria estar.
Te confesso que algumas vezes lembrei de você: "Essa camisa ficou linda você. Melhor que em meu marido". Pra que essa raiva amor? Você nunca a usou! Não se recorda que dissse parecer frágil nela? Pois ele pareceu um Hércules.
Um passo. Já parou pra pensar que apenas um passo em falso e pronto! Toda sua vida se descontrola. Comigo foram vários passos. Todos os passos que me levaram ao altar me condenaram.
Sábia mamãe: "Não confio em advogados.Mentem sob juramento frente a juiz,jurados e testemunhas. E ainda mentem bem vestidos!"
Êpa! Não somos iguais, eu não menti. Você sequer me viu olhar em direção oposta a sua. E eu não fui pega.
Fique calmo. A dor de cabeça será mais amena amanhã. Finja que está tudo bem, porque chegará um tempo em que você vai mesmo acreditar nisso.
Talvez você nem chegue a sentir nada. Eu nunca o deixei sozinho frente a uma romântica mesa de jantar preparada com o maior amor desse mundo, em pleno aniversário de casamento. Você nunca mentiu para seus amigos, narrando as loucuras de uma noite de amor que não existiu. Nunca precisou mandar flores para você mesmo no trabalho, na tentativa de acreditar e fazer com que outros acreditassem que existia alguém que pensava em você naquele instante.
Bem lembrado! Muito obrigada pela jóia do Dia dos Namorados que a sua secretária escolheu. Deveriam ter cuidado apenas em não comprar jóias iguais para mulheres tão diferentes. O marido daquela vadia jamais poderia ter dado uma jóia daquela.
Realmente adorei a jóia. Me deu muita sorte. Cheguei a contar que o conheci usando o colar? O tirou de forma tão cuidadosa, com mãos firmes em volta do meu pescoço.
Eu sei, eu sei que sempre disse que eu era a melhor esposa do mundo. E não mentiu. Não dessa vez. Ainda sou. Já pequei em algo com você? Os anos mais felizes de sua vida não fui eu quem proporcionou? Fui sempre linda, divertida, amável, inteligente. Você pôde todo o tempo me exibir aos seus amigos barrigudos.Intimamente sempre fui perfeita também não fui?
Sabe, até queria não ter sido, só assim te entenderia.
Realmente não menti. No máximo omiti, mas não consigo representar.Desisti do Direito recorda-se?
Taí, acho que a faculdade me deu a melhor imagem de você. Não sei porque abandonei a idéia do amor platônico. Outro erro.
Você era tão "tudo" naquela época. "Um homem pra casar, "Qualquer mulher teria sorte". Mesmo os garotos pronunciavam isso, Irônico.
Lógico que não é o mesmo amor. Não repita isso.
Tá bom, não te chamarei mais de amor. Vou apenas de relembrar: você me ensinou que sexo e amor não tem nada a ver. Sempre fez isso.
Está chorando? Tem certeza do que fala? Ele também nada significou pra mim.
Sério? Recomeçar?
É, também achoo Caribe um bom lugar para um novo começo. Te amo amor, isso nunca mudou.


Escrito por Érica Francisca de Souza