“Quantos pães Seu Júlio?” A pergunta do balconista lhe soou como uma seta envenenada indo direto ao coração. “Dois”, respondeu. Mas não conseguiu pegar a sacola, pois foi tomado por um soluço incontrolável. Levou as mãos ao rosto e deixou o desespero tomar sua alma.
Uma semana atrás seria impossível comprar apenas dois pães. Pão era uma das comidas preferidas de seus filhos. Então, toda manhã bem cedo corria à padaria da esquina e comprava quinze pães torrados e quentinhos. Era o primeiro cliente a chegar.
Assim que se recompôs, pegou a sacola e saiu sem se despedir. Por isso, nem notou os rostos perplexos que deixou para trás. Enquanto voltava pra casa pensou no quanto sua vida mudara nos últimos dias, mais ainda: no quanto ele mudara. Realmente, sua vida havia se fragmentado em dois períodos: o Júlio antes do acidente dos filhos e, o que restou do Júlio depois.
Desejara voltar ao tempo e desmarcar todos os “compromissos importantes” para fazer o que de fato seria inadiável: passar mais uns segundos que fosse com eles. Quis ter estado na platéia para ver a princesa das árvores mais bonita do teatro; também aspirou tanto ter estado na arquibancada torcendo pelo filhão. “Que bobagem” não podia. Mas ainda assim quis tanto ter aprendido jogar videogame! Chegou a querer ter sido viciado nisso, só porque sabia que todas as vezes que seus olhos corressem para o lado, lá estariam eles, tentando vencê-lo. E perderia feliz.
Trouxera à memória o fato de que a muito custo aprendera a trançar o cabelo da filha e se tornara um “expert” em penteados, o que fazia Clara rir muito. Ainda assim, não se sentiu aliviado. A sensação de que poderia ter feito mais estava sempre presente.
Quando os filhos ainda eram crianças, ao chegar em casa a primeira coisa que fazia era se jogar no tapete para brincarem de homens invisíveis. E eram de verdade.
Nada seria igual. Não mais. O silêncio lhe doía os ouvidos, nele a ausência do rock que Clara ouvia bem alto gritava-lhe. “Como preferia a dor de cabeça e o incomodar dos vizinhos com a barulheira”. A ausência de sons dói, massacra os ouvidos.
Sentia falta de sua família. Não existia mais família. “Família de dois? Isso não é família! Não existe família com duas pessoas”. A primeira vez que disse isso à sua esposa sofreu muito, pois sentiu que a houvera machucado, mas era a verdade e ela sabia disso.
Desde o dia em que sua tia, na tentativa de ajuda sugeriu que fossem retiradas as roupas e os pertences de Clara e Emílio de casa, pois as “lembranças machucam” e “eles não usariam mais”, Júlio não quis mais receber visitas.
- Por não enxergar, um cego deve ter seus olhos arrancados?! Pergunte a um se deseja isso! Diga-lhe: Para que precisa de olhos se não podes ver? Berrou possesso.
Toda vez que tocava a campanhia, corria para seu escritório.
As pessoas tendem a esquecer que as maiores lembranças de alguém, são as que não podem ser tocadas, pois, estão cravadas em cada um. Então, sempre a saudade lhe sacrificava ainda mais, gostava de ir ao quarto deles para pegar suas roupas e as abraçar. ”Elas ainda têm seu cheiro”. Chegava a dormir com elas. E ninguém levaria o cheiro dos filhos daquela casa. Foi apenas o que restou: o cheiro deles, o passado que era agora seu tesouro e uma imensa e inarrável dor.
Aquele pensamento sempre o atormentava: temia um dia esquecer suas vozes. Tremia só de pensar que o silêncio as pudesse engolir para sempre e isso o aterrorizava de tal forma que, ao sonhar com eles passava o dia inteiro com elas na cabeça. Não, nunca se permitiria esquecer.
O desejo de viver dormindo se tornou quase uma obsessão. Queria dormir porque dormindo sempre sonhava e nos sonhos lá estavam, Clara, Emílio e suas vozes. Ao acordar, aquela sensação que se tem de que foi real o sonho o deixava sereno. Ficava preso durante todo dia ao sonho tido, as imagens reais, a sua família real e aos seus filhos vivos de verdade. Se não conseguia dormir, recorria a remédios. Tudo bem que dormir não o que importava, queria mesmo é sonhar.
Até o dia daquela desgraça, não soubera o significado de sofrimento. Teve uma infância e adolescência plena e nada que o desagradasse muito na fase adulta. Casara com a mulher que amava e desde então havia saboreado os dias e dias de uma felicidade planejada. Foi feliz duplamente ao saber da gravidez, dose dupla de emoção no nascimento dos gêmeos e só então sentiu a multiplicação de dor na perda.
Uma cena do velório: Dois caixões univitelinos. Que amaldiçoada ironia! Eles lado a lado como na gestação, lado a lado como estiveram no berçário quando nasceram e lado a lado se foram.
Júlio se inclinou no caixão de Clara. Um sussurro ao ouvido: “Obrigado princesa. Os dias foram de um rosa cintilante e caminhos mais amenos a seu lado. Fez mesmo com Emílio: “Filhão, obrigado. Foram doces todas as horas só de imaginar que o veria no fim do dia. Beijou-os a face. Um susto. O rosto de cada um estava completamente gélido! Notou assim que não havia mais ninguém ali. Eles tinham ido embora.
Sempre que voltava a este cenário sentia o corpo cansado, os músculos rígidos lhe doíam muito. Decidiu deitar-se e logo adormeceu. Estava num barco e via a praia e seus muitos coqueiros ao longe; a esposa aproveitava o sol daquele dia de verão. Daí as vozes: Papai vem logo. A água está deliciosa”.
Morreu sorrindo em mais um sonho real e em família. Há quem diga que morrera feliz.
Érica Francisca de Souza




