Através da janela do carro via as pessoas lá fora, num formigueiro humano. Umas a andar apressadas, outras conversando, uma mãe segurava firma a mãe do filho ao atravessar a avenida, algumas outras trabalhavam. De onde teriam vindo? Que pensamentos estariam passando pelas suas cabeças naquele momento? Que futuro as aguardava? Que escolhas fariam?
Sempre que o tempo lhe permitia pensar em algo que não fosse o trabalho, ficava observando os transeuntes. Porém, pensamento tinha sido interrompido pela indagação do motorista:
- O senhor não me respondeu para onde quer ir Dr. Júnior
- Ao restaurante Maka`s Tito.
Quatro da tarde e ainda não havia almoçado. Solicitou o restaurante mais longe do seu escritório porque queria pensar mais um pouco, coisa que seria improvável fazer em casa ou no escritório visto que o telefone nunca parava de tocar.
Era dia 6 de julho e tinha estado distante todo o dia. Fazia exatos quinze anos que ele saíra do interior de Sergipe para “conquistar o Rio de Janeiro” e, apesar de seu sucesso, essa data nunca tinha lhe dado muito contentamento. A cada aniversário da vinda para a Cidade Maravilhosa ficava totalmente melancólico, longe como se estivesse sob efeito de hipnose.
Sua vida em Pernambuco não havia sido muito fácil. Para chegar à escola andava oito quilômetros a pé numa terra rachada como o enrugado rosto de um velho. Ia em grupo: ele, Pino seu amigo de infância e afilhado de seu pai, Mirna a amiga mais engraçada da turma e que era gaga, Tião e sua irmã Amália.
O que sempre intrigava o Dr. Júnior era o fato de que só depois de crescido ele teve a noção de que cinco crianças entre seis e sete anos de idade andavam sozinhas todos os dias debaixo de um sol escaldante para chegar à escola. Andavam oito quilômetros! Na época costumava dizer que a escola ficava ali “pertinho”.
Eles riam muito na estrada, falavam sobre o que cada um queria ser, de que iriam brincar quando chegassem a escola com os outros amigos e na volta, sempre avessos a solicitação dos pais de não pararem no caminho sem um bom motivo, sempre tomavam um banho na represa. Muitas vezes comiam a merenda do dia antes de chegarem à escola e, apesar de todos levarem a mesma coisa na sacolinha, sempre dividiam uns com os outros os seus punhadinhos de farinha com bananas. Vez ou outra quando as bananas não tinham tido tempo para amadurecer levavam cacto assado na folha de bananeira.
A certeza de ser peão acompanhou-o durante toda a sua infância. Não qualquer peão, mas, “o melhor peão do mundo”, aquele de rodeios. Seria conhecido como “o Encantador de Bois”. Antes de ir deitar fazia coro com seu pai, amava ouvi-lo tocar aquela sanfona velha, e não deixava o sono lhe vencer antes da chegada de sua mãe para beijá-lo: “Nossa Senhora te cubra com teu manto”.
Uma coisa muito engraçada era que todas as vezes que Dr. Júnior chegava a sua casa no Leblon sempre a estranhava, não se habituava ao tamanho, o ambiente e ainda que residisse ali há três anos, era como se não fosse dele. O engraçado, dizia ele, é que toda vez que pronuncio a palavra casa, a que me vem à mente é a minha casinha de taipa na roça com seus quatro cômodos de chão de barro batido. As cicatrizes nos dedos haviam sido herança daquele chão onde costumava brincar de três Marias com sua irmã Amália e, ainda que não lhe faltasse recursos para removê-las nunca o quis fazê-lo, pois eram como “fotografias de um momento bom”.
Seus pais o haviam visitado duas vezes desde que tinha se estabilizado como um respeitado empresário do ramo de turismo, mas não gostavam do barulho da metrópole então, sempre que seus clientes permitiam voltava a Sergipe. O que em números isso significava quatro vezes. Ansiava muito ajudar mais os pais, mas que utilidade teria um televisor de LCD, um computador e um home theater naquele lugar? A máquina de lavar que tinha dado a sua mãe em seu aniversário fora transformado em reservatório de água e o conjunto de seda pura que trouxe de uma das suas viagens à Indonésia tinha sido comido pelas traças ainda na sacola.
Com a ajuda do trânsito chegou ao restaurante em quarenta minutos. ”Era um vencedor”. Quando contava aos amigos de onde tinha vindo, era essa frase que ouvia em seguida. Um vencedor. A palavra tomou uma conotação diferente de seus tempos de menino. Lá, o vencedor era aquele que conseguia atingir o topo da árvore mais alta trazendo o fruto do lugar mais difícil. “O Tarzan” comia por três dias o lanche dos vencidos - que nunca ficavam sem comer de verdade - que tinham a obrigação de levar cadernos e livros do vencedor por uma semana. Isso é que era glória.
Na porta do Maka`s sentiu o gosto de sua sobremesa predileta em Sergipe: as raras flores que encontravam pela estrada e que misturadas com o mel que o patrão do pai de Tião dava, ficavam deliciosas.
Sentou-se à melhor mesa do mais requintado restaurante do Rio, já de cardápio na mão o garçon perguntou-lhe:
- Qual a especialidade hoje Dr. Júnior?
- Tem banana com farinha? disse ao garçon
Érica Francisca de Souza

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