sábado, 19 de março de 2011

Pães




“Quantos pães Seu Júlio?” A pergunta do balconista lhe soou como uma seta envenenada indo direto ao coração. “Dois”, respondeu. Mas não conseguiu pegar a sacola, pois foi tomado por um soluço incontrolável. Levou as mãos ao rosto e deixou o desespero tomar sua alma.
Uma semana atrás seria impossível comprar apenas dois pães. Pão era uma das comidas preferidas de seus filhos. Então, toda manhã bem cedo corria à padaria da esquina e comprava quinze pães torrados e quentinhos. Era o primeiro cliente a chegar.
Assim que se recompôs, pegou a sacola e saiu sem se despedir. Por isso, nem notou os rostos perplexos que deixou para trás. Enquanto voltava pra casa pensou no quanto sua vida mudara nos últimos dias, mais ainda: no quanto ele mudara. Realmente, sua vida havia se fragmentado em dois períodos: o Júlio antes do acidente dos filhos e, o que restou do Júlio depois.
Desejara voltar ao tempo e desmarcar todos os “compromissos importantes” para fazer o que de fato seria inadiável: passar mais uns segundos que fosse com eles. Quis ter estado na platéia para ver a princesa das árvores mais bonita do teatro; também aspirou tanto ter estado na arquibancada torcendo pelo filhão. “Que bobagem” não podia. Mas ainda assim quis tanto ter aprendido jogar videogame! Chegou a querer ter sido viciado nisso, só porque sabia que todas as vezes que seus olhos corressem para o lado, lá estariam eles, tentando vencê-lo. E perderia feliz.
Trouxera à memória o fato de que a muito custo aprendera a trançar o cabelo da filha e se tornara um “expert” em penteados, o que fazia Clara rir muito. Ainda assim, não se sentiu aliviado. A sensação de que poderia ter feito mais estava sempre presente.
Quando os filhos ainda eram crianças, ao chegar em casa a primeira coisa que fazia era se jogar no tapete para brincarem de homens invisíveis. E eram de verdade.
Nada seria igual. Não mais. O silêncio lhe doía os ouvidos, nele a ausência do rock que Clara ouvia bem alto gritava-lhe. “Como preferia a dor de cabeça e o incomodar dos vizinhos com a barulheira”. A ausência de sons dói, massacra os ouvidos.
Sentia falta de sua família. Não existia mais família. “Família de dois? Isso não é família! Não existe família com duas pessoas”. A primeira vez que disse isso à sua esposa sofreu muito, pois sentiu que a houvera machucado, mas era a verdade e ela sabia disso.
Desde o dia em que sua tia, na tentativa de ajuda sugeriu que fossem retiradas as roupas e os pertences de Clara e Emílio de casa, pois as “lembranças machucam” e “eles não usariam mais”, Júlio não quis mais receber visitas.
- Por não enxergar, um cego deve ter seus olhos arrancados?! Pergunte a um se deseja isso! Diga-lhe: Para que precisa de olhos se não podes ver? Berrou possesso.
Toda vez que tocava a campanhia, corria para seu escritório.       
As pessoas tendem a esquecer que as maiores lembranças de alguém, são as que não podem ser tocadas, pois, estão cravadas em cada um. Então, sempre a saudade lhe sacrificava ainda mais, gostava de ir ao quarto deles para pegar suas roupas e as abraçar. ”Elas ainda têm seu cheiro”. Chegava a dormir com elas. E ninguém levaria o cheiro dos filhos daquela casa. Foi apenas o que restou: o cheiro deles, o passado que era agora seu tesouro e uma imensa e inarrável dor.
Aquele pensamento sempre o atormentava: temia um dia esquecer suas vozes. Tremia só de pensar que o silêncio as pudesse engolir para sempre e isso o aterrorizava de tal forma que, ao sonhar com eles passava o dia inteiro com elas na cabeça. Não, nunca se permitiria esquecer.
O desejo de viver dormindo se tornou quase uma obsessão. Queria dormir porque dormindo sempre sonhava e nos sonhos lá estavam, Clara, Emílio e suas vozes. Ao acordar, aquela sensação que se tem de que foi real o sonho o deixava sereno. Ficava preso durante todo dia ao sonho tido, as imagens reais, a sua família real e aos seus filhos vivos de verdade. Se não conseguia dormir, recorria a remédios. Tudo bem que dormir não o que importava, queria mesmo é sonhar.
Até o dia daquela desgraça, não soubera o significado de sofrimento. Teve uma infância e adolescência plena e nada que o desagradasse muito na fase adulta. Casara com a mulher que amava e desde então havia saboreado os dias e dias de uma felicidade planejada. Foi feliz duplamente ao saber da gravidez, dose dupla de emoção no nascimento dos gêmeos e só então sentiu a multiplicação de dor na perda.
Uma cena do velório: Dois caixões univitelinos. Que amaldiçoada ironia! Eles lado a lado como na gestação, lado a lado como estiveram no berçário quando nasceram e lado a lado se foram.
Júlio se inclinou no caixão de Clara. Um sussurro ao ouvido: “Obrigado princesa. Os dias foram de um rosa cintilante e caminhos mais amenos a seu lado. Fez  mesmo com Emílio: “Filhão, obrigado. Foram doces todas as horas só de imaginar que o veria no fim do dia. Beijou-os a face. Um susto. O rosto de cada um estava completamente gélido! Notou assim que não havia mais ninguém ali. Eles tinham ido embora.
Sempre que voltava a este cenário sentia o corpo cansado, os músculos rígidos lhe doíam muito. Decidiu deitar-se e logo adormeceu. Estava num barco e via a praia e seus muitos coqueiros ao longe; a esposa aproveitava o sol daquele dia de verão. Daí as vozes: Papai vem logo. A água está deliciosa”.
Morreu sorrindo em mais um sonho real e em família. Há quem diga que morrera feliz.


Érica Francisca de Souza

O VENCEDOR







Através da janela do carro via as pessoas lá fora, num formigueiro humano. Umas a andar apressadas, outras conversando, uma mãe segurava firma a mãe do filho ao atravessar a avenida, algumas outras trabalhavam. De onde teriam vindo? Que pensamentos estariam passando pelas suas cabeças naquele momento? Que futuro as aguardava? Que escolhas fariam?
Sempre que o tempo lhe permitia pensar em algo que não fosse o trabalho, ficava observando os transeuntes. Porém, pensamento tinha sido interrompido pela indagação do motorista:
- O senhor não me respondeu para onde quer ir Dr. Júnior
- Ao restaurante Maka`s Tito.
Quatro da tarde e ainda não havia almoçado. Solicitou o restaurante mais longe do seu escritório porque queria pensar mais um pouco, coisa que seria improvável fazer em casa ou no escritório visto que o telefone nunca parava de tocar.
Era dia 6 de julho e tinha estado distante todo o dia. Fazia exatos quinze anos que ele saíra do interior de Sergipe para “conquistar o Rio de Janeiro” e, apesar de seu sucesso, essa data nunca tinha lhe dado muito contentamento. A cada aniversário da vinda para a Cidade Maravilhosa ficava totalmente melancólico, longe como se estivesse sob efeito de hipnose.
Sua vida em Pernambuco não havia sido muito fácil. Para chegar à escola andava oito quilômetros a pé numa terra rachada como o enrugado rosto de um velho. Ia em grupo: ele, Pino seu amigo de infância e afilhado de seu pai, Mirna a amiga mais engraçada da turma e que era gaga, Tião e sua irmã Amália.
O que sempre intrigava o Dr. Júnior era o fato de que só depois de crescido ele teve a noção de que cinco crianças entre seis e sete anos de idade andavam sozinhas todos os dias debaixo de um sol escaldante para chegar à escola. Andavam oito quilômetros! Na época costumava dizer que a escola ficava ali “pertinho”.
Eles riam muito na estrada, falavam sobre o que cada um queria ser, de que iriam brincar quando chegassem a escola com os outros amigos e na volta, sempre avessos a solicitação dos pais de não pararem no caminho sem um bom motivo, sempre tomavam um banho na represa. Muitas vezes comiam a merenda do dia antes de chegarem à escola e, apesar de todos levarem a mesma coisa na sacolinha, sempre dividiam uns com os outros os seus punhadinhos de farinha com bananas. Vez ou outra quando as bananas não tinham tido tempo para amadurecer levavam cacto assado na folha de bananeira.
A certeza de ser peão acompanhou-o durante toda a sua infância. Não qualquer peão, mas, “o melhor peão do mundo”, aquele de rodeios. Seria conhecido como “o Encantador de Bois”. Antes de ir deitar fazia coro com seu pai, amava ouvi-lo tocar aquela sanfona velha, e não deixava o sono lhe vencer antes da chegada de sua mãe para beijá-lo: “Nossa Senhora te cubra com teu manto”.
Uma coisa muito engraçada era que todas as vezes que Dr. Júnior chegava a sua casa no Leblon sempre a estranhava, não se habituava ao tamanho, o ambiente e ainda que residisse ali há três anos, era como se não fosse dele. O engraçado, dizia ele, é que toda vez que pronuncio a palavra casa, a que me vem à mente é a minha casinha de taipa na roça com seus quatro cômodos de chão de barro batido. As cicatrizes nos dedos haviam sido herança daquele chão onde costumava brincar de três Marias com sua irmã Amália e, ainda que não lhe faltasse recursos para removê-las nunca o quis fazê-lo, pois eram como “fotografias de um momento bom”.
Seus pais o haviam visitado duas vezes desde que tinha se estabilizado como um respeitado empresário do ramo de turismo, mas não gostavam do barulho da metrópole então, sempre que seus clientes permitiam voltava a Sergipe. O que em números isso significava quatro vezes. Ansiava muito ajudar mais os pais, mas que utilidade teria um televisor de LCD, um computador e um home theater naquele lugar? A máquina de lavar que tinha dado a sua mãe em seu aniversário fora transformado em reservatório de água e o conjunto de seda pura que trouxe de uma das suas viagens à Indonésia tinha sido comido pelas traças ainda na sacola.
Com a ajuda do trânsito chegou ao restaurante em quarenta minutos. ”Era um vencedor”. Quando contava aos amigos de onde tinha vindo, era essa frase que ouvia em seguida. Um vencedor. A palavra tomou uma conotação diferente de seus tempos de menino. Lá, o vencedor era aquele que conseguia atingir o topo da árvore mais alta trazendo o fruto do lugar mais difícil. “O Tarzan” comia por três dias o lanche dos vencidos - que nunca ficavam sem comer de verdade - que tinham a obrigação de levar cadernos e livros do vencedor por uma semana. Isso é que era glória.
Na porta do Maka`s sentiu o gosto de sua sobremesa predileta em Sergipe: as raras flores que encontravam pela estrada e que misturadas com o mel que o patrão do pai de Tião dava, ficavam deliciosas.
Sentou-se à melhor mesa do mais requintado restaurante do Rio, já de cardápio na mão o garçon perguntou-lhe:
- Qual a especialidade hoje Dr. Júnior?
- Tem banana com farinha? disse ao garçon


Érica Francisca de Souza

sábado, 12 de março de 2011

Adoção









Me adote criança
Me mostre como é não ter medo
Me ensine a correr como cavalos selvagens
Numa velocidade incontida

Queria ter sua agilidade
Em quebrar redomas de vidro
E sempre conseguir escapar

Como conseguem desaparecer assim?
Do alcance da visão alheia?
Me ensine criança

Tão pequena e já em poder
Que louco esse poder
De fotografar a alma adulta
Como identifica o perigo nas pessoas?

Me ensine essa brincadeira de esconde-esconde
Mostre o melhor esconderijo dos problemas
Leve-me a seu castelo

Ponha-me pra ninar
Cante uma música de duendes
Me banhe com pétalas de rosa
Me faça lembrar que tenho direito a sonhos

Que crescer não é sinônimo de renúncia
Que nem sempre banhos de chuva adoecem
E que ser feliz não é bobagem

Me faça ter a certeza que é errado pensar
Que há apenas uma fase
Para se ser feliz de verdade

Diga pra mim, por favor,
Que não existem erros incorrigíveis
Se nós quisermos

Como é criança,
Sorrir só por vontade?
E chorar sem ter vergonha?

Me adote pequena
Preciso ao passado voltar
Ver como eu era
Me resgatar

Me conte histórias
Me ponha como princesa nelas
E não esqueça de contar que as bruxas sempre perdem
Posso sim, ser adulto e criança numa só fase
Dormir agarrada a um ursinho
E ter amigos imaginários
Tudo posso se simplesmente me adotar.


Érica Francisca de Souza

Visita



Não o procurei, nem por um segundo.
Mas todo o tempo soube que viria
Amor sempre chega
E ele chegou

Com você nos braços
Semelhante a uma cegonha
Te entregou a mim

Nesse momento a voz do anjo:
“transforme cada dia em sorrisos seculares”

Zonza de felicidade
Te recebi,
Folhas das árvores caíram

Era o ritual
Em que florestas choram
Por celebrar o amor

Minha vida se desviou
Indo direto pro seu caminho
Agora te tenho como escudo

Sem contratos
Sem contudo
Só contente

Te tenho imperfeito
Da mais perfeita forma
Que pode um coração desejar

Vem garoto
Descobrir comigo
Que inferno pode não ser tão ruim
Se quatro mãos estiverem dadas

Você e eu
Partes inteiras
Da metade de todo amor
Que há no mundo

Zonza te recebi
E zonza vivo até hoje.


Érica Francisca de Souza

Por não querer




Por não Querer

Eu que nem lembrava o que era viver
Que não respeitava o tempo
E que não tinha espaço
Me vi em você

Eu que não estava aqui, nem ali.
Que não estava em lugar algum
Agora moro em você

Nunca disse que seria calmaria
E nem fui
Mas fui a constante do amor
Avassalador amor

Eu que nem queria me mover
Fui movida por este amor
Areia movediça
Submersa por querer

Eu que nem prometi te dar estrelas, céu ou lua
Te dou todas além do céu, do mar e da lua
Pois tenho todas em mim
A cada toque seu

Quem há de negar que amor é bobo?
Porque eu que nem queria te aceitar
Te recebo todos os dias assim:
Um imperfeito completo

Pois aqui, em meu amor.
Não existem pedras irremovíveis

Nem queria me mostrar
E apareço pelo avesso
Em seu domínio sempre melhor

Eu que nunca quis
Não me imagino sem
Já que amor não é querer
Ele é acontecer!


Érica Francisca de Souza

quinta-feira, 10 de março de 2011

Resposta







Fiz o mesmo com você. Ou acha que foi o único a ter segredos? Também senti outro perfume e soube bem que outra boca pode ser tão doce quanto a sua.Descobri que meu corpo tem o encaixe perfeito com outro corpo além do seu.
Porque esse espanto amor? Você as desejava tanto! Ah, se olhasse para mim como as olhava! Sua cegueira comigo fez com que outros olhares se voltassem para mim.
Nunca pensei em você quando estava com ele, mas sempre pensava nele ao seu lado.
Você me convenceu: sexo nada tem a ver com amor. Se pudermos uni-los, ótimo;mas quando separados não é menos prazeroso.
Não me mande calar. Você nunca foi grosseiro, isso não.
Consegue se lembrar a última vez que veio direto do trabalho pra casa? Sabe quantas vezes me humilhei te ligando? Quantas vezes ouvi a caixa de mensagem? E quantas vezes chorei?
Não se desculpe agora. "Que casa aconchegante". Alguém adorou vir ao lugar que você deveria estar.
Te confesso que algumas vezes lembrei de você: "Essa camisa ficou linda você. Melhor que em meu marido". Pra que essa raiva amor? Você nunca a usou! Não se recorda que dissse parecer frágil nela? Pois ele pareceu um Hércules.
Um passo. Já parou pra pensar que apenas um passo em falso e pronto! Toda sua vida se descontrola. Comigo foram vários passos. Todos os passos que me levaram ao altar me condenaram.
Sábia mamãe: "Não confio em advogados.Mentem sob juramento frente a juiz,jurados e testemunhas. E ainda mentem bem vestidos!"
Êpa! Não somos iguais, eu não menti. Você sequer me viu olhar em direção oposta a sua. E eu não fui pega.
Fique calmo. A dor de cabeça será mais amena amanhã. Finja que está tudo bem, porque chegará um tempo em que você vai mesmo acreditar nisso.
Talvez você nem chegue a sentir nada. Eu nunca o deixei sozinho frente a uma romântica mesa de jantar preparada com o maior amor desse mundo, em pleno aniversário de casamento. Você nunca mentiu para seus amigos, narrando as loucuras de uma noite de amor que não existiu. Nunca precisou mandar flores para você mesmo no trabalho, na tentativa de acreditar e fazer com que outros acreditassem que existia alguém que pensava em você naquele instante.
Bem lembrado! Muito obrigada pela jóia do Dia dos Namorados que a sua secretária escolheu. Deveriam ter cuidado apenas em não comprar jóias iguais para mulheres tão diferentes. O marido daquela vadia jamais poderia ter dado uma jóia daquela.
Realmente adorei a jóia. Me deu muita sorte. Cheguei a contar que o conheci usando o colar? O tirou de forma tão cuidadosa, com mãos firmes em volta do meu pescoço.
Eu sei, eu sei que sempre disse que eu era a melhor esposa do mundo. E não mentiu. Não dessa vez. Ainda sou. Já pequei em algo com você? Os anos mais felizes de sua vida não fui eu quem proporcionou? Fui sempre linda, divertida, amável, inteligente. Você pôde todo o tempo me exibir aos seus amigos barrigudos.Intimamente sempre fui perfeita também não fui?
Sabe, até queria não ter sido, só assim te entenderia.
Realmente não menti. No máximo omiti, mas não consigo representar.Desisti do Direito recorda-se?
Taí, acho que a faculdade me deu a melhor imagem de você. Não sei porque abandonei a idéia do amor platônico. Outro erro.
Você era tão "tudo" naquela época. "Um homem pra casar, "Qualquer mulher teria sorte". Mesmo os garotos pronunciavam isso, Irônico.
Lógico que não é o mesmo amor. Não repita isso.
Tá bom, não te chamarei mais de amor. Vou apenas de relembrar: você me ensinou que sexo e amor não tem nada a ver. Sempre fez isso.
Está chorando? Tem certeza do que fala? Ele também nada significou pra mim.
Sério? Recomeçar?
É, também achoo Caribe um bom lugar para um novo começo. Te amo amor, isso nunca mudou.


Escrito por Érica Francisca de Souza

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A descoberta

Olhando o céu...
E foi assim que descobriu o mundo
Seu mundo
Se descobriu como o sol no início da manhã
E foi assim que aprendeu a viver
Mesmo sem perceber estava despertando para a vida
A sua vida
O dia passava e ela vivia
A vida reluzia em seu olhar
Era ela a bela que antes só sabia olhar
E olhando aprendeu a ver
Viu um mundo inteiro dizendo “eu quero você”
Ela o quis
E viveu de verdade...
Foi feliz.



Texto de Fernanda Martins

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TRIÂNGULO AMOROSO






Um rapaz está apaixonado. Insisti em dizer que não é somente uma paixão, mas sim um verdadeiro amor eterno. Admite que jamais sentirá algo assim e que não sabe ou não pode se declarar, afinal sua timidez o impossibilita, mas, não é só isso, na verdade Luiz se encontra numa situação embaraçosa, totalmente vergonhosa e por certo duvidosa. Deve ser cauteloso e pacifico ou poderá enveredar-se por caminhos tortuosos e prejudiciais.
A moça por quem Luiz suspira é uma misteriosa donzela, meiga, simpática, inteligente, espontânea e um tanto volúvel. Afirma sentir amor por Pedro ao passo que não sabe se quer casar-se. Assim é Ana Clara: uma garota sonhadora, porém de uma sensatez e decisão espantosa.
Pedro, ah! Como morre de orgulho por namorar a Clarinha, menina dos seus olhos, sua verdadeira paixão... Mas Pedro apesar de amá-la tanto e tão intensamente tem falta para com Clarinha. É um tanto relapso no namoro, as suas atenções fogem por ora á Ana. Pensa muito em casar-se, luta muito para que isso logo aconteça, mas da pouco valor aquilo que muito importa “a noiva”.
Por conta desse incomodo o namoro não vai nada bem, Clara sente falta de um namorado presente, um amigo, um companheiro,e embora tendo amigas com quem desabafar sente sua falta, Todas as amigas são unânimes em aconselhar para que termine com Pedro. Que por outro lado tem um só amigo, na verdade melhor amigo muito mais que um irmão, um verdadeiro amigo, Luiz.
Pedro pede para que Luiz tente conversar com sua amada, Luiz se recusa acha que essas questões devem ser decididas entre o casal, mas o amigo insiste afirma que não sabe como agir e lembra que sempre que passou por situações semelhantes quem o ajudou? Luiz. Além do mais a Clara simpatiza muito com o Luiz os dois tem características comuns, Pedro deposita todas as suas fichas no amigo Luiz. ”você fará com que ela me entenda”.
Clara e Luiz dão continuidade a o que se pode tornar uma longa amizade. E se tornou. Ana e Lú apelido carinhoso que Clara lhe deu, tornaram-se verdadeiros amigos, confidentes e muito unidos.
A paixão de Luiz cada vez mais se desenvolvia tudo que Clarinha falava era como musica aos seus ouvidos, os pensamentos, os gostos, os lugares sempre eram comuns aos dois e algumas vezes aos três. A amizade continuou os conselhos nem sempre...
Luiz não suportava mais aquela situação, queria falar o que estava sentindo, sabia que tinha que fazer aquilo, precisava se sentir aliviado, mas pensava muito em seu amigo, Luiz gostava demais de Pedro, eram como irmão sempre fora fiel ao amigo. Sentia-se muito mal com toda essa situação, mas temia em se afastar de uma das duas partes envolvidas ou até mesmo das duas ao mesmo tempo.
Mas sentia em seu coração um sentimento recíproco de Clara, na verdade pensava que se nunca tomasse a iniciativa jamais contestaria se havia mesmo intenções além de amigáveis por parte dela.
Mas isso precisava ter fim. Um dia foi à casa de Clara como de costume, mas dessa vez era diferente sentira seu coração acelerado, despontando para fora era como se naquele momento fosse decidir toda sua vida.
Ao chegar ao seu destino se depara com uma desagradável surpresa. Encontra-se com Pedro que por sua vez está travando uma discussão com a namorada. Ao chegar é logo percebido pelo amigo que age estranhamente. Sai rapidamente do local, tendo em sua face um olhar de reprovação, poderia mesmo dizer, de raiva, decepção. A cabeça do amigo se confunde, Não sabe se é por conta da briga com Clara ou por estar zangado com ele, ou quem sabe se o segundo motivo não se relacionava com o primeiro?
Luiz entra no recinto e vê clara chorando, há uma troca de olhares juntamente com alguns poucos minutos de silêncio, os enamorados se aproximam e numa fração de segundos ocorre o (in) esperado, um beijo.
Um beijo rápido quase que imperceptível, mas para Luiz uma eternidade uma troca de sentimentos, uma confirmação dos mesmos, uma sensação de prazer absoluto e ao afastar-se uma sensação de perda, de infidelidade, de vergonha. Promete jamais contar a ninguém.
Depois do ocorrido perde-se por um tempo contato com a grande paixão e também com o fiel amigo.
Luiz sente fúria dentro de si, e uma terrível culpa pelo ato mais errado que já cometeu.
Por algum tempo Pedro e Clarinha passam, por péssima situação no namoro a então noiva parece esconder algo, demonstra estranheza na relação, então aquilo que parecia ser uma grande realização é posto um fim. Luiz ao saber do ocorrido, ainda não se sabe como, pensa que agora teria chegado sua grande chance decide procurar a moça e logo em seguida revelar tudo ao bom companheiro.
Ao chegar encontra Ana depois de certo tempo, o coração ainda pulsa, mas sente indiferença com relação ao sentimento alheio. Teria ela reprovado o beijo? Teria a doce Clarinha esquecido do seu amado? Ou na verdade Ana Clara gostasse mesmo de aventuras?
Clara percebendo o ar duvidoso que estava no olhar do amigo, convidou-o para sentar-se alegou ter gostado dos momentos que passaram das conversas que tinham, da ajuda que Luiz teria “tentado” dar para salvar o seu namoro, e por fim teria sido conivente com aquele beijo, mas tudo passou de um engano um precipitado engano, Clara chegou a pensar que Pedro fosse sua grande paixão e Luiz se enquadraria no titulo de sua alma gêmea. Tudo ocasionado pelo impulso.
Em lágrimas Ana Clara solicita ao querido amigo que a ajude a reconquistar o amado, diz que Pedro é seu grande amor e que jamais viveria sem ele. Luiz ainda triste por aquelas palavras decidiu ajudar.
Passados alguns dias consegue com êxito realizar a tarefa. Pedro e Clara retomam com mais intensidade o amor. Luiz vendo a felicidade do amigo percebe que na verdade estava nutrindo um sentimento que jamais existira. E a única coisa que restou desse conturbado triângulo amoroso... Foi um segredo.





Escrito por Nivianne Katrin

domingo, 6 de fevereiro de 2011


Meus amores me mataram!
Amei tanto que me esqueci de mim
Era tudo tão lindo e tentador...
Ingênua preferi não resistir
Hoje eu não sei quem sou e nem me lembro de quem fui
Morri para mim, morri para o amor

Meus amores me mataram!
E por mais que eu tente, sei que já não vivo
Quero amar, mas sei que já não posso 
Um inerte coração... Apenas uma sombra
É o que me tornei

Meus amores me mataram!
Sou apenas lembranças, que não consegui esquecer
E se esquecesse não existiria mais
Nem mesmo sombra seria
Já não respiro, nem sinto o perfume das flores
Posso vê-las...

Meus amores me mataram!
Nem tive tempo de me defender
Deixei-me prender em seus laços
E não mais consegui sair
Presa, morri
Morri para o amor e para eles
Meus amores me mataram...



 Fernanda Martins

Devaneios




Desejos, sonhos, perdas, vitórias
Um conjunto, a vida
Um dia uma história
Quem sabe? Quem viu?

Uma estrela brilhou, caiu
Um sorriso brilhou, a boca sorriu
Foi a chave, a passagem
E um mundo se abriu

Te olhei, te vi
Sorri, sorriu
Conheci, gostei
Te olhei, beijei
Acordei sumiu.

                 Fernanda Martins

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Cegueira




Pobre homem estúpido
Consegue ver se alma tem cor?
Não? E como esxerga diferença entre nós?

Quanta cegueira homem
Tanto sacrifício humano,
Tanta hostilidade,
Que ódio vulgar!

Não, não culpes Pandora
Ela apenas pôs na caixa o que sugeriu
E foi você quem a abriu
O mostro foi solto por suas mãos;

Mãos que castigam,
Que apontam como inferior,
E golpeiam a face do igual.

Não, não foi Pandora quem excluiu
Ela não marginalizou,
Pandora não tirou o direito,
Nem substituiu ar puro por câmara de gás

Que saudade tenho dos teus olhos infantis!
Eles que por todos brilhavam com igualdade.
Do teu coração também tenho saudade,
Já que era liberto de todos os grilhões que hoje te adornam.

Me diz homem,
Seus olhos azuis são capazes de identificar numa pilha de esqueletos
Os aristocratas e os escravos?
Porque a morte é incapaz de fazê-lo
E ela chega a todos. Sempre!

Aprende cego, que não se prende liberdade,
Enquanto for livre o pensamento
Note que o mundo é um gigante,
Um gigante em cores.

Deixe-me lavar toda a sua estupidez,
Com a água mais pura da terra:
A lágrima negra

Assim estará purificado
Dessa cegueira invertida
Que o faz pensar, sentir, respirar,
Tudo em branco.


Escrito por Érica Francisca de Souza

Palavras


Fico em silêncio,
As palavras falam,
E eu as escuto.

A terra suspensa
Enquanto eu,
Sobre nuvens danço.

Comigo as palavras,
Nuvens de palavras,
Sons de palavras,
Palavras ao vento,
Eu, só palavras.

Elas que sopradas no silêncio em mim
Me revelam,
E despida me vejo,
Então me faço, desfaço, refaço

Se agora sou anjo
Ali, sou também  fera,
Corro princesa aqui
Para lá me encontrar rainha

Nesse fazer, desfazer, refazer
Descubro, invento, sugiro, crio
Posso tudo.
Palavra: Te tenho como Poder.



Escrito por Érica Francisca de Souza

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fada





Quero ser adotada pela felicidade,
Me portar como Estrela,
Não caber em mim.

Quero evitar repetições,
Ser rara como pônei
E imaginada como unicórnio

Quero ser a dúvida constante:
Mito ou Verdade?
Quero viver como suicída,
Que nunca o ato concretiza.

Quero agir com despropósito,
Ter a insensatez do poeta,
Ser maestro da música em mim.

Quero um mundo de meninos,
Ser tão boa a ponto da renúncia,
E tão má para esquisofrenicamente ao outro me doar.

Quero mais ensurdecer o mundo com meus berros,
Do que viver enclausurada em minha mente

Quero o gosto amargo da derrota,
Ao doce da trapaça
Quero a companhia das borboletas,
E não de homens-abutre

Quero a cintilância
Ah! Como quero ser nobre ao falar,
E plebeu ao amar.

Quero nunca o céu olhar
E duvidar que de lá,
Alguém me olha de volta;

Quero ser mágica,
Ser música,
Ser musa

Quero todos os quereres,
Que tiver direito
E os que não tiver,
Os quero também

Quero a segurança do chão
Como também a corda-bamba do alerta

Quero tantos amigos
Quanto peixes ao mar
E com eles, em cardume caminhar

E depois de tudo isso querer,
A tudo isso ter,
Sou fada!


Escrito por Érica Francisca de Souza

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A janela


Olhar. Simplesmente olhar. É o que ela fazia todos os dias. Olhava como se pudesse ver o mundo inteiro através daquela janela, já que era aquele o seu único meio de comunicação com o mundo exterior. 
Kaila estava sempre à janela olhando a vida acontecer lá fora enquanto não podia levantar-se de sua cadeira de rodas, assim como também não conseguia mover se quer sua mão sem a ajuda de sua mãe. Todos imaginavam que deveria ser um sofrimento para a menina, a situação triste em que se encontrara desde o acidente. No entanto, não era assim que ela se sentia. Por mais que as coisas fossem difíceis não aparentava depressão, nem se sentia uma coitada. Sua única exigência era que sua cadeira ficasse próxima à janela.
Todas as pessoas que passavam em frente a casa já a conheciam. Seu olhar profundo e concentrado fazia com que as coisas que ela observava aparentassem um pouco de magia. Era um olhar diferente um jeito único de quem vê e sente o mundo de uma forma singular.
Kaila era feliz. Sua vontade de viver fazia com que todas as suas limitações fossem apenas mais um detalhe. O importante era estar ali. Poder ver o sol e as flores, sentir o vento acariciar seu rosto e bagunçar seus cabelos. Estar viva! Ah!... Como era bom estar viva. E ela estava.
 Às vezes ficava pensando que se não fosse o maldito acidente, ela jamais descobriria a beleza da vida, uma vida que até então ela desconhecia, jamais experimentaria da simplicidade de ser feliz, não aprenderia a ver a magia natural que há nas coisas simples e boas, talvez nem aprendesse a amar de verdade quem sempre a amou incondicionalmente, sua mãe. Antes sua vida se resumia a baladas, bebidas, drogas e falsos amigos. Entretanto, nada disso trouxe a ela a paz que sempre procurou. Não que fosse bom estar paraplégica, mas foi por meio desse incidente catastrófico que a felicidade e a paz se revelaram a ela como um sol que revela o dia com seus raios majestosos todas as manhãs, como as ondas que revelam toda a magia e encantamento do mar. A vida havia se mostrado de uma maneira tão extraordinária que ela não conseguia e nem queria encontrar motivos para ficar triste ou lamentar sua situação.  Foi por aquela janela que ela olhou e viu o mundo  pela primeira vez.

                         Texto de Fernanda Martins

Presentes de Guerra




Para batalha!
Há alvos para seu gatilho
Marche! É hora de matar,
A sua glória é sangue.

Atire!
É um desconhecido inimigo
Ele não tem rosto,
Só uma pátria

Bombardei!
Você não é um homem,
É uma máquina de matar.

Não chores,
Os que aqui te enviaram
Aplaudem o espetáculo da morte.

Se orgulhe exímio atirador
A criança caída no chão,
Já não respira

Marque!
É o seu território,
Você o usurpou

Veja!
São cachorros a comer carne humana,
Você foi canibal primeiro

Lute!
A guerra não é sua
Mas já não és inocente

Chore!
Alguns de seus companheiros
Não voltaram

Culpe-se!
Você foi o juiz que condenou bebês
A serem órfãos na vida

Corre! Há um paraíso à sua espera
Lá não há granadas
Você levou todas para o lugar onde um dia,
Foi o paraíso de alguém

Invente desculpas,
Se iluda.
Isso não remove sua culpa

Não se envergonhe,
Você será homenageado,
Pelos que não viram o horror

Pegue. Sua brilhante medalha,
Seu diploma,
Ceifeiro da vida!

Tome! É a sua medalha,
Que pendurada num lugar de honra,
Não permitirá que durmas,
Uma só noite

Tome! É a sua medalha,
Pesada hein?
É o corpo de cada vítima sua

Agora suplique,
Para que um dia você não sinta,
O cheiro de sangue,
De corpos podres.

Para que um dia deixe de ouvir,
Gritos de socorro,
Urros de dor,
Choro de mães.

Suplique que um dia a imagem da menina,
A vagar sozinha à lugar algum,
Seja de sua memória apagada

Não se engane,
Você não foi vencedor,
Não nesta guerra.
Você também foi destruído.

Pior soldado, você morre em vida,
Por jamais esquecer os olhos,
Que com terror te suplicaram a misericórdia.


Escrito por Érica Francisca de Souza

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Desconhecimentos



A mulher olhava-o enquanto dormia. Há algum tempo tinha verdadeiro contentamento em fazê-lo, agora parecia algo alheio.
"Como deixara que isso acontecesse? Como permitira ser pego?!"
As pessoas geralmente perdem o encanto umas com as outras à medida que se conhecem e nada de novo acrescentam à suas vidas. Cléo sempre queria o novo, o desconhecido era um verdadeiro vício.  Tinha uma vida fadada a conhecimentos necessários e desnecessários: inglês, francês, piano, ballet, jazz, pintura, montaria, literatura etc. Sua vida era um planejamento só. Sabia o que iria ocorrer minuto após minuto. E a possibilidade do desconhecimento de algo ou alguém era-lhe muito atraente.
De beleza bastante acentuada, odiava espelhos: "Não há novidades, só o refletir tal como somos".
Ao ver o marido dormindo aquela noite se recordava com saudade dos tempos áureos em que seu marido era a personificação do mistério, do imprevisto. Por isso casou- se com Tiago. Era a novidade que a chamava para ele, sim, o novo, o desconhecido.
Tiago era tudo isso. A aura de mistério que o envolvia a deixava tão segura, tão feliz. Era esse elo de união juntamente com o abismo de incerteza de cada passo seguinte que Cléo tanto buscara. Ele era tão surpreendente quanto um rock cantado em outra língua, que faz com que seus ouvintes deduzam que sua letra fale de coisas macabras e no entanto é a pureza da rosa que ele traz.  Era enigma que não tinha a menor intenção de desvendar. Preferia-o assim: quebra-cabeças de mil peças embaralhado. Seu beijo, abraço, carinho,sexo sempre eram diferentes.
"A gente ama mesmo sem conhecer", dizia Cléo.
Nem mesmo no dia do casamento Tiago deixou de ser surpresa. Imaginem qual foi o choque da noiva ao vê-lo chegar para buscá-la e a acompanhar até o altar. Chegou a sentir raiva na hora. "Isso dá azar" respondeu logo, tentando esconder seu vestido. "Azar vai dar se você me deixar plantado aqui" disse ele sorrindo.Aquela raiva súbita deu espaço à extase da incompreensão que tanto venerava.
Cada segundo da vida a dois tinha sido banhado de um estarrecimento feliz.
Tiago era como um susto. Ninguém espera um susto. Assim era seu marido: o inesperado.A acordava no meio da noite para dançar á luz da lua, interrompia reuniões importantíssimas para lhe fazer declarações de amor, dava-lhe de presente viagens inusitadas (ela até já havia participado de rituais indígenas), comeu olho de um animal que preferiu nem saber qual era. Compôs para a esposa uma música em japonês - horrível por sinal- que adorava vê-lo cantar e dançar pois era muito engraçado.
Por isso ao olhar Tiago aquela noite repetia mentalmente essa pergunta:" Como você permitiu ser pego? Onde está o meu homem desconhecido? Por que me permitiu conhecê-lo?.Tinha os olhos rasos de água tanta era a tristeza que consumia. De uns meses pra cá  estava diferente, previsível. E por mais que procurasse vestígios daquele desconhecido tão íntimo ficarava cada vez mais perigosa a procura, pois percebia que se distanciava...e se distanciava. Não que tivesse mudado com ela. Isso não.Dispensava-lhe o mesmo amor, afeto e atenção dos primeiros dias que se conheceram, sua mudança era de atitude.
Sabia exatamente a hora que iria sair, quando chegaria para o almoço, a hora que passaria para buscá-la no trabalho e até o deitar dele. Tudo parecia metodicamente planejado. A sensação que Cléo tinha era que se ela se esforçasse consiguiria até ler o pensamentos dele.O que era culto ao desconhecimento virou frustração, pois o que excitava Cléo era o desconhecido. Desconhecido que agora tinha virado o óbvio.Sentia saudades. Em outros tempos Tiago jamais permitiria que o conhecesse na íntegra. "Definir é limitar-se " era sua frase favorita e acrescentava: "Sou o indefínível inconstante, pois não tenho limites". Parece que tudo isso havia mudado.
É, parece que o indefinível inconstante tinha razão. Numa manhã, quando trocava ração de um canário que ele havia ganho à sua revelia, notou no papel que forrava a gaiola um bilhete com letra feminina. Nele identificou o nome do marido. A pós trocar a ração, tirou o papel da gaiola substituindo por outro e põs- se a ler o bilhete que dizia: " Querido Tiago, temos um tempinho antes que você volte para casa.Te espero cheia de paixão. Ass: Letícia".
Tremeu. Uma convulsão a dominou. O coração fulminavae lágrimas corriam à face. Agora a compreensão, o porque dele jamais se atrasar, de estar em casa o mesmo horário sempre, os compromissos juntos sempre cumpridos.
A alegria lhe invadiu o espírito de tal forma que ela pensou poder voar. Até voava em pensamento. Ele estava lá todo o tempo. Ainda era o mesmo, o outro, o susto, a surpresa. Ainda era dela.
Naquele dia ao chegar em casa Tiago foi recepcionado com o pular de pescoço de Cléo que quase o derrubou.
- Obrigada por ainda estar aí amor. Te amo! 
Foi o disse ao beija-lo longamente....


Escrito por Érica Francisca de Souza


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Reencontro

Estava no quarto e ouvi alguém bater à porta, desci a escada correndo, sabia que era ele... No entanto foi tão grande o impacto ao vê-lo que meu corpo trepidava. Por um instante pude contemplar a beleza que há em seu rosto, suas expressões... Mas desviei o olhar. Tentei não encher meu coração de esperança, mas seu olhar era tão penetrante que mal consegui não fixá-lo.
Era estranho pensar que aquele homem, era o homem que eu amava pensar que fomos tão felizes juntos e, de repente estávamos ali feito dois desconhecidos. Nunca entendi o motivo que o trouxera à minha casa aquela noite, entretanto ele estava ali. E isso era só o que me interessava e, nada mais, nem mesmo os anos que passamos longe um do outro, discussões, os desencontros, nada podia nos interromper.
Nos abraçamos.
Naquele momento não consegui pensar em nada além de nós. Em seguida nos olhamos, até então não havíamos trocado uma palavra se quer, a emoção falava por nós.                  Nos encontramos naquele olhar, que ao mesmo tempo que nos aproximou nos deixou imóveis por alguns segundos. Retomamos o abraço. Sentia o calor forte que emanava de seu corpo, eu já não relutava mais em olhá-lo, queria senti-lo, tê-lo perto de mim.
 E finalmente nos beijamos. Foi tão perfeito e irreal, que quase não acreditei. Ele me abraçou mais forte, e olhou fixo em meus olhos. Parecia contemplar meu rosto, mas era como se através dele pudesse ver minha alma. Senti naquele instante que sempre nos amamos, e ainda que eu não acreditasse estava tudo ali naquela sala. Uma explosão tomou conta de mim, mal sabia o que dizer, e o perguntei por que havia voltado e disse-me apenas –“Eu te amo, sempre amei.” Estas palavras ecoaram tão profundamente em mim que perdi as palavras, o abracei novamente e o beijei, apenas o beijei.
Começou a chover lá fora, mas nem demos conta. Nossos corpos se envolveram com tamanha paixão que não éramos mais ele e eu, havia apenas nós dois. Era tão tátil e ao mesmo tempo abstrato que não pude compreender. Mas como entender algo inexplicável como o amor?
Era estranho, as coisas aconteceram muito rápido que não conseguia assimilar nada. E ainda estávamos lá, eu recostada em seu peito envolta por suas mãos que eram como uma fortaleza a me proteger de tudo que pudesse nos separar. Queria congelar aquele instante. Guardar para sempre as imagens, os gestos tão significativos e cruciais em nosso reencontro. Tinha medo de que partisse outra vez, e quis ficar ali, só ficar. Nosso amor selado com um abraço em uma noite de chuva. A chuva que o trouxe de volta à nossa casa. E até hoje não sei bem qual o propósito daquele evento estranhamente louco.
                 
                Fernanda Martins

SUGESTÕES

Sugiro que ouça. Ouviu?
É o calar das ondas,
Ele indica que um amor acaba de morrer.

Sugiro que ouça. Ouve.
São gritos de dor de um alguém solitário.
Sugiro que vejas. Vês?
A outra metade desistiu no caminho.

Sugiro que sintas,
É o fardo de ser deixado livre.
Sugiro que se permita ser mal e bem

Sugiro que se entregue,
Que se cale
Palavras agora são desnecessárias.

Sugiro que odeie,
E que em seguida ame
Sugiro que se desconheça
E se orgulhe disso.

Sugiro que enlouqueça
É a sua dor,
O seu desespero

Sugiro que se perca
E que se encontre com outros perdidos,
E que continuem a se perder.

Até então ser achado,
E achar
Uma nova caminhada.
Outros personagens.



Érica Francisca de Souza

VAZIO


Lance-me aos lobos,
Lace-me o corpo
Não por ser seu fracasso
Mas, por mostrar que você não é gigante.

Trema!
Frieza por não ter amor,
Porque eu tenho olhos embassados ao desviar da tua direção;

Porque a cegueira me faz enxergar melhor
Porque se vai, fico triste
E se chega, fico nervoso

Lance-me aos lobos,
Já que não corre risco
Risque-me!
Já que não me pode apagar

Note que eu fui machucado,
Mas te socorri
Que eu fui esquecido,
Mas tentei de novo.

Sufoque-me,
Porque suas tentativas,
Não conseguiram me enfraquecer.

Puna-me!
Eu sempre juntarei os cacos,
Amor é fênix.

Lance-me aos lobos,
Com eles uivarei.
Lance-me por te revelar que ninguém é digno de assim ser amado,
Se não for capaz de amar.



Érica Francisca de Souza

PONTOS




Ela que era sempre interrogação
Trombou com ele,
Que era pura exclamação
Nesse instante o coração de cada um recebeu uma visita.
Uniram-se de pronto.
Ele brisa.
Ela tornado.
Ele, ouro reluzente,
Ela a prata brilhante
Ele o poema
Ela o rock
Entre os dois a paixão sublime
Ela interrogação
Ele exclamação
E as reticências de um começo sem fim.


Érica Francisca de Souza

DESABAFO


Coadjuvante de minha própria história
Totalmente desligada do corpo
Mente em devaneio
O levitar do espírito

Você que era dono da cena,
Que me dirigia,
Me repeliu.

Hipnotizada pela desgraça
Eu, imóvel assisto
Ao meu próprio abandono
Orfã no amor

Aqui, me vendo de longe
Sou apenas um quadro,
Sem graça e nem moldura
Um borrão. O rascunho do que deveria ser.

Uma inútil.
Apenas um espectro daquilo que fui
E que devastada,
Jamais voltarei a ser.


Érica Francisca de Souza

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pesadelo

Abri os olhos, não vi nada
Inspirei, não tinha ar
Será que morri?
 Impossível naquele instante
Ainda estava ali deitado puxando o ar que dali tinha fugido
Senti meus pulmões sucumbirem à falta do ar
Então acordei.

Texto de Fernanda Martins

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

As duas faces do tempo

Apesar de o tempo ser uma maldição é com o passar dele que se percebe o quanto as coisas são importantes, pois mesmo que se perceba isso no instante em que tudo acontece é depois que o tempo passa que tudo se torna maior e mais intenso porque foi capaz de resistir ao tempo.
 O tempo grande senhor dos destinos, tem o poder de curar, mesmo sendo a perdição, a navalha que corta a pele até que sangre é ele que com o passar dos dias faz a pele se recompor e a ferida cicatrizar. É ele aquele que vem e traz consigo o futuro cheio de surpresas, é ele que tira à vida aos poucos, ao passo em que querem se livrar dele.
 Faz da humanidade uma presa fácil, dócil e frágil, que pensa poder dominá-lo não compreendendo que tudo que resiste ao senhor tempo torna-se ruína, os que se deixam levar por ele só se vão lenta ou rapidamente, porém aqueles que fazem dele seu amigo e companheiro e decidem caminhar com ele o aproveita e vive. Inspira e transpira vida. Sabe que não adianta tentar matar o tempo, pois este gigante resistirá e prevalecerá até que nada mais exista.
            Texto de Fernanda Martins

Incerteza

Fecho os olhos para o mundo e abro-os para mim
Me perco numa estrada que eu pensava conhecer
Percebo-me quieta nem céu, nem sol
Apenas eu abandonada em mim... Só
Sei o que não quero
Ainda não encontrei o que quero
Nem sei se estou à procura
Meus medos...
Estou perdida e a incerteza me tortura
A certeza de estar viva...
Procuro a cura
Não vou encontrar... eu sei
Volto correndo
Entrecorrendo meus pensamentos
Acho que estou sonhando
Bem perto da saída respiro... Penso,
Abro os olhos em fim
Voltei para o mundo onde não me perco
Sabendo um pouco mais de mim.
                       
                               Texto de Fernanda Martins

A descoberta

Olhando o céu...
E foi assim que descobriu o mundo
Seu mundo
Se descobriu como o sol no início da manhã
E foi assim que aprendeu a viver
Mesmo sem perceber estava despertando para a vida
A sua vida
O dia passava e ela vivia
A vida reluzia em seu olhar
Era ela a bela que antes só sabia olhar
E olhando aprendeu a ver
Viu um mundo inteiro dizendo “eu quero você”
Ela o quis
E viveu de verdade...
Foi feliz

                          Texto de Fernanda Martins

A maldição do tempo





Quando crianças ainda não-nascidas já chega nos tirando do quentinho e da unidade materna.
Somos bebês e nos acorda pois acha necessário que provemos da queda nos primeiros passos.
O tempo nos alerta que é chegada a hora de falar "mamãe", porque no decorrer dele aprenderemos frases importantes como "eu te amo".
Então descobrimos que é poderoso. O comandante das estações: no inverno, banhos de chuva com amigos. No outono, o lambuzar de deliciosas frutas. No verão, o calor gostoso ao andar de bicicleta. Na primavera, pétala por pétala da emoçao juvenil.
Ó tempo! Não quero saber o que é sofrer! E nem conhecer a dor passageira. Mas, o tempo parece ser surdo. Mais que isso: o tempo é implacável! Chega a adolescência: dúvidas, primeiro beijo, amores eternos que duram poucos meses, desilusões, muitos sorrisos e alegrias.
E quando já estamos acostumados com esse turbilhão de emoções, quem vejo ao longe? Quem? Eu o conheço, ah, como conheço! É o tempo ao bater em meu ombro e com os olhos me fala e eu imediatamente sei que acabou a festa, as incertezas, o direito de errar e errar continuamente. Acabou a sombra da proteção familiar. Ele tem outros planos, outro portal, outra vida.
" - Prazer, desculpe chegar tão depressa e de surpresa. Isso sempre acontece e quase ninguém se dá conta. Mas sou permanente.Sou a fase adulta. É chegada a hora de caminhar com as próprias pernas".
Ê tempo! Que parque é esse que mantém? Ora a roda gigante cheia de altos e baixos. Ora a montanha russa de velocidade e agilidade assombrosa: trabalho, filhos, família, eu.
Ninguém consegue entender o tempo. Esse tempo que não passa em nossas horas mais terríveis , mas, que insiste em voar na velocidade da luz quando vivemos os momentos mais felizes da vida.
Talvez seja por isso que a maldição existe: por querermos dominá-lo, por não respeitá-lo como merece. Daí a vingança.
Na verdade o tempo só é ameno quando, cansados das marcas por ele mesmo deixadas as pernas já não mais obedecem aos nossos comandos e a memória nos trai, chega sereno nos pega com cuidado pelas mãos e sussura com leveza:" Chegou a hora de escrever seu nome no livro da vida".
Por isso é inútil bricarmos de esconde-esconde com ele.Pois, a única forma de aplanar suas cicatrizes é viver de forma mais intensa possível, para que quando for chegada a nossa hora de ter os nomes escritos no livro, ele seja gravado com tinta de fixação eterna na memória do que ficaram. De geração em geração que lembrarão de nossas histórias e aventuras, onde a força do tempo é incapaz de arrancá-la de lá.



Texto escrito por Érica Francisca de Souza

O estranho




Olhos, boca, medo, respiração.
O vento.
E na altura de um abismo contei-lhe meus segredos
E ele me puxou de volta.

Disse-me que a loucura é a parte mais sã da vida, porque é ela que marca
Pulsei.
A vida se agitou.

Agora, um estranho conhecido,
Agora, não mais estranheza,
Agora, um lugar no mundo,
Agora por não mais precisar de um futuro tenho o presente
Presente que antes me era estranho.

O estranho,
Que não me tirou do breu,
Apenas entrou comigo nele e acrescentou estrelas


O efêmero se foi
Porque um estranho me mostrou meu eu
Um eu que me era estranho,
E agora é meu. Só meu.

Um poema de Érica Francisca de Souza


>A lição dos dez segundos


Dez segundos. Foi o que gastou para realizar a ligação a alguém que morava a cinco minutos de sua casa. Só dez segundos. Ao teclar cada número foram gastos apenas dez segundos. Apenas?!! O que acontece em dez segundos?
Bem, dez segundos pode ser o tempo de atraso e você perdeu o trem. Nele, a pessoa que sentaria a seu lado seria a mais importante de sua vida.
 Dez segundos pode ser o último sopro de vida de um ente querido que partiu e você perdeu a oportunidade de ser a última imagem que ele viu em vida.
Em dez segundos o sinal fechou, o motorista da limusine com pressa não viu e um noivo ficou solitário no altar. E esse dia que seria marcado como o primeiro dia mais feliz do resto de suas vidas virou um pesadelo.
 Dez segundos podem ser os primeiros passos de seu filhinho e quando você virou já era tarde. Ele estava sentadinho no chão.
Dez segundos de solidão que é muito para aquele que não tem mais vontade de viver. Dez segundos que podem ser transformados em minutos ou em horas, caso você esteja ao lado do dono de seu coração.
Isso mesmo, foram gastos preciosos dez segundos em uma ligação e o telefone não iria dar aquele abraço que irá te acalentar. Pelo e-mail ninguém vai perceber se no momento em que fora escrito aquele que o escreveu estivera triste ou alegre. Porque por e-mail não se vê brilho nos olhos, o movimentar da boca e nem o tremer das mãos.
A tela do computador não será fiel ao tentar demonstrar o tum-tum de dois corações ao se despedirem em um abraço.
A dimensão das gargalhadas de amigos felizes terão mais graça em tempo real e não na frieza de uma tela, ainda que esta seja a maior no mercado.
Lágrimas não poderão ser enxugadas se você estiver distante.
Brigar e imediatamente fazer as pazes tendo um beijo ardente como selo da reconciliação são coisas que apenas podem ser feitas ao vivo.
O cheiro de quem se gosta não pode atravessar a TV.
Uma mãe que oferece seu ventre apertadinho e seguro por meses, deseja mais que um postal. Deseja a união, o encontro, o aperto, pois, só isso lhe dará a certeza de que sua cria esteve bem durante o tempo que se manteve longe.
Sendo assim, busquemos valorizar a importância de cada segundo que podemos estar próximos daqueles que nos importamos. Para que um dia não desejemos com tristeza preciosos dez segundos perdidos.
As pessoas não podem ser substituídas por máquinas, afinal você não se casaria com um robô casaria?
Sim, pessoas não podem ser substituídas.
O tempo não volta. Nem dez segundos.
E ausência sempre irá significar a falta de presença.


Um texto de Érica Francisca de Souza