quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A janela


Olhar. Simplesmente olhar. É o que ela fazia todos os dias. Olhava como se pudesse ver o mundo inteiro através daquela janela, já que era aquele o seu único meio de comunicação com o mundo exterior. 
Kaila estava sempre à janela olhando a vida acontecer lá fora enquanto não podia levantar-se de sua cadeira de rodas, assim como também não conseguia mover se quer sua mão sem a ajuda de sua mãe. Todos imaginavam que deveria ser um sofrimento para a menina, a situação triste em que se encontrara desde o acidente. No entanto, não era assim que ela se sentia. Por mais que as coisas fossem difíceis não aparentava depressão, nem se sentia uma coitada. Sua única exigência era que sua cadeira ficasse próxima à janela.
Todas as pessoas que passavam em frente a casa já a conheciam. Seu olhar profundo e concentrado fazia com que as coisas que ela observava aparentassem um pouco de magia. Era um olhar diferente um jeito único de quem vê e sente o mundo de uma forma singular.
Kaila era feliz. Sua vontade de viver fazia com que todas as suas limitações fossem apenas mais um detalhe. O importante era estar ali. Poder ver o sol e as flores, sentir o vento acariciar seu rosto e bagunçar seus cabelos. Estar viva! Ah!... Como era bom estar viva. E ela estava.
 Às vezes ficava pensando que se não fosse o maldito acidente, ela jamais descobriria a beleza da vida, uma vida que até então ela desconhecia, jamais experimentaria da simplicidade de ser feliz, não aprenderia a ver a magia natural que há nas coisas simples e boas, talvez nem aprendesse a amar de verdade quem sempre a amou incondicionalmente, sua mãe. Antes sua vida se resumia a baladas, bebidas, drogas e falsos amigos. Entretanto, nada disso trouxe a ela a paz que sempre procurou. Não que fosse bom estar paraplégica, mas foi por meio desse incidente catastrófico que a felicidade e a paz se revelaram a ela como um sol que revela o dia com seus raios majestosos todas as manhãs, como as ondas que revelam toda a magia e encantamento do mar. A vida havia se mostrado de uma maneira tão extraordinária que ela não conseguia e nem queria encontrar motivos para ficar triste ou lamentar sua situação.  Foi por aquela janela que ela olhou e viu o mundo  pela primeira vez.

                         Texto de Fernanda Martins

Nenhum comentário:

Postar um comentário