A mulher olhava-o enquanto dormia. Há algum tempo tinha verdadeiro contentamento em fazê-lo, agora parecia algo alheio.
"Como deixara que isso acontecesse? Como permitira ser pego?!"
As pessoas geralmente perdem o encanto umas com as outras à medida que se conhecem e nada de novo acrescentam à suas vidas. Cléo sempre queria o novo, o desconhecido era um verdadeiro vício. Tinha uma vida fadada a conhecimentos necessários e desnecessários: inglês, francês, piano, ballet, jazz, pintura, montaria, literatura etc. Sua vida era um planejamento só. Sabia o que iria ocorrer minuto após minuto. E a possibilidade do desconhecimento de algo ou alguém era-lhe muito atraente.
De beleza bastante acentuada, odiava espelhos: "Não há novidades, só o refletir tal como somos".
Ao ver o marido dormindo aquela noite se recordava com saudade dos tempos áureos em que seu marido era a personificação do mistério, do imprevisto. Por isso casou- se com Tiago. Era a novidade que a chamava para ele, sim, o novo, o desconhecido.
Tiago era tudo isso. A aura de mistério que o envolvia a deixava tão segura, tão feliz. Era esse elo de união juntamente com o abismo de incerteza de cada passo seguinte que Cléo tanto buscara. Ele era tão surpreendente quanto um rock cantado em outra língua, que faz com que seus ouvintes deduzam que sua letra fale de coisas macabras e no entanto é a pureza da rosa que ele traz. Era enigma que não tinha a menor intenção de desvendar. Preferia-o assim: quebra-cabeças de mil peças embaralhado. Seu beijo, abraço, carinho,sexo sempre eram diferentes.
"A gente ama mesmo sem conhecer", dizia Cléo.
Nem mesmo no dia do casamento Tiago deixou de ser surpresa. Imaginem qual foi o choque da noiva ao vê-lo chegar para buscá-la e a acompanhar até o altar. Chegou a sentir raiva na hora. "Isso dá azar" respondeu logo, tentando esconder seu vestido. "Azar vai dar se você me deixar plantado aqui" disse ele sorrindo.Aquela raiva súbita deu espaço à extase da incompreensão que tanto venerava.
Cada segundo da vida a dois tinha sido banhado de um estarrecimento feliz.
Tiago era como um susto. Ninguém espera um susto. Assim era seu marido: o inesperado.A acordava no meio da noite para dançar á luz da lua, interrompia reuniões importantíssimas para lhe fazer declarações de amor, dava-lhe de presente viagens inusitadas (ela até já havia participado de rituais indígenas), comeu olho de um animal que preferiu nem saber qual era. Compôs para a esposa uma música em japonês - horrível por sinal- que adorava vê-lo cantar e dançar pois era muito engraçado.
Por isso ao olhar Tiago aquela noite repetia mentalmente essa pergunta:" Como você permitiu ser pego? Onde está o meu homem desconhecido? Por que me permitiu conhecê-lo?.Tinha os olhos rasos de água tanta era a tristeza que consumia. De uns meses pra cá estava diferente, previsível. E por mais que procurasse vestígios daquele desconhecido tão íntimo ficarava cada vez mais perigosa a procura, pois percebia que se distanciava...e se distanciava. Não que tivesse mudado com ela. Isso não.Dispensava-lhe o mesmo amor, afeto e atenção dos primeiros dias que se conheceram, sua mudança era de atitude.
Sabia exatamente a hora que iria sair, quando chegaria para o almoço, a hora que passaria para buscá-la no trabalho e até o deitar dele. Tudo parecia metodicamente planejado. A sensação que Cléo tinha era que se ela se esforçasse consiguiria até ler o pensamentos dele.O que era culto ao desconhecimento virou frustração, pois o que excitava Cléo era o desconhecido. Desconhecido que agora tinha virado o óbvio.Sentia saudades. Em outros tempos Tiago jamais permitiria que o conhecesse na íntegra. "Definir é limitar-se " era sua frase favorita e acrescentava: "Sou o indefínível inconstante, pois não tenho limites". Parece que tudo isso havia mudado.
É, parece que o indefinível inconstante tinha razão. Numa manhã, quando trocava ração de um canário que ele havia ganho à sua revelia, notou no papel que forrava a gaiola um bilhete com letra feminina. Nele identificou o nome do marido. A pós trocar a ração, tirou o papel da gaiola substituindo por outro e põs- se a ler o bilhete que dizia: " Querido Tiago, temos um tempinho antes que você volte para casa.Te espero cheia de paixão. Ass: Letícia".
Tremeu. Uma convulsão a dominou. O coração fulminavae lágrimas corriam à face. Agora a compreensão, o porque dele jamais se atrasar, de estar em casa o mesmo horário sempre, os compromissos juntos sempre cumpridos.
A alegria lhe invadiu o espírito de tal forma que ela pensou poder voar. Até voava em pensamento. Ele estava lá todo o tempo. Ainda era o mesmo, o outro, o susto, a surpresa. Ainda era dela.
Naquele dia ao chegar em casa Tiago foi recepcionado com o pular de pescoço de Cléo que quase o derrubou.
- Obrigada por ainda estar aí amor. Te amo!
Foi o disse ao beija-lo longamente....
Escrito por Érica Francisca de Souza

"... o desconhecido era pra ela um verdadeiro vício..." e "desconhecer" são coisas completamente diferente. Realmente a busca pelo desconhecido é um vicio na vida daquelas pessoas que estão em constante mudança, em crescimento.Fazer com que cada dia seja diferente é querer viver mais.
ResponderExcluirObserve: você acorda todo dia naquele mesmo horário com aquele barulho insuportável e incomodo do despertador, toma café, se arruma e vai para o trabalho pegar aquela mesma estrada com seu carro, ou aquele busão . A constância as vezes é tão absurda que você encontra sempre aquelas mesmas pessoas "desconhecidas" no ponto de onibus ou dentro do busão. Pessoas que você nunca viu mas que já fazem parte de seu dia a dia. Chega ao trabalho para executar aquelas mesmas tarefas que lhes foram delegadas. O horário de almoço na empresa é sempre o mesmo, as vezes até mesmo o almoço ( segunda-feira aquele velho trivial, terça-feira macarrão com frango, quarta-feira aquela bisteca de porco com arroz e farofa de manteiga...), ao final do expediente retorna pra casa com seu carro pela mesma estrada, enfrentando o mesmo trânsito, ou de busao novamente e novamente encontra com aqueles mesmos "desconhecidos" que assim como você estava lá cedo esperando por esse mesmo busao, e até com o tempo um " - Olá. " já lhe é dado de tantos encontros repetitivos com as mesmas pessoas pois já fazem parte de sua vida. Chegando em casa com o mesmo cansaço de sempre, indisposição, toma banho e vai dormir porque amanhã tem que ser IGUAL. Estress, desmotivação, depressão, frustração,mau humor, ninguém nunca te entende, dizem que você é rebelde e que reclama demais. Esses sintomas passam a tomar conta de nossas vidas e agente acaba por se entregar a eles.
Por mais que você volte pra casa, descanse do dia e de tudo que você fez, por mais que você tente fingir, não é desse jeito que você vai viver feliz.
A rotina é o inimigo numero um da felicidade, pois se acostumar a uma ordem de atividades especificas faz com que o interesse diminua e que o fracasso seja iminente.
"... DIAS IGUAIS SÃO COMO UM RIO CORRENDO PRA TRAZ NÃO DESAGUA EM NENHUM LUGAR..." (Sandy - musica Dias Iguais)
As coisas bem conhecidas e confiáveis são muito importantes em nossa vida sim, atenha-se a elas ,mesmo nessa busca pelo desconhecido, mantenha os vínculos com aquilo que ja conquistou. Mas não deixe ser rotina.
APRENDA - quanto mais se aprende, mais se têm a consciência de que menos sabe.
e o DESCONHECIDO é o maior mar que podemos nadar, sem saber o que tem nele.
Vá e nade até onde seu limite físico/mental permitir. Pensa primeiro se não é uma ilusão. Mas ouse.
Esta beleza de viver no desconhecido é o verdadeiro ato que estamos a fazer no Planeta Terra. A este Ato nomeamos de VIVER.
Ser ou não ser eis a questão.!!!!!!!!
Dizia um príncipe enlouquecido descrito por Shakespeare. Ou seria um Shakespeare enlouquecido descrevendo um Príncipe?
Não vivemos assim ou daquela forma, vivemos diante o desconhecido. Quando nos posicionamos ante o novo, este se torna logo, rapidamente, velho. Quando conhecemos o momento em que vivemos nos surge outro. Imediato momento novo a ser vivido.
Que chatice seria sabermos tudo sobre todos. Seria o fim de nossas vidas, do sentido atribuído a elas, simples vidas.
E DESCONHECER É SER IGNORANTE
BUSQUE O DESCONHECIDO, VIVA.
SERÁ QUE SE EU NÃO BUSCASSE O DESCONHECIDO, SE EU NÃO CONHECESSE, SERIA MAIS FELIZ? SERÁ QUE POR IGNORAR TODAS ESSAS COISAS, TODO ESSE DESCONHECIDO E VIVESSE NO MEU MUNDINHO, SERIA MAIS FELIZ POR NAO DESEJAR AQUILO QUE EU NEM SEI QUE EXISTE? AFINAL EXISTE ALGUMA VANTAGEM EM SER IGNORANTE? EU NAO ESTOU DISPOSTO A PAGAR PRA VER.
ENTAO EU VIVO, OUSO E BUSCO O DESCONHECIDO A CADA DIA DE MINHA VIDA.
BJOS....
VC FALA E EU ESCUTO, VC SABE DISSO NAO É...
ResponderExcluirAMO MTAO
BJOS
Maravilhoso.
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